A chegada

Miguel,

Você nasceu poucos dias antes das comemorações de Natal. Essa é uma época cheia de expectativas, e carregada de bons desejos. Hoje, quando escrevo esse texto, é véspera de Natal. Num futuro próximo, quando você tiver curiosidade sobre o dia do seu nascimento, quem sabe não se interesse em ler isso aqui?

Eu queria contar como foram os momentos que antecederam sua chegada. Não apenas os momentos imediatos, mas aqueles que sua mãe construiu (com a minha ajuda e apoio, sim, mas esforço sobretudo dela).

Guarde isso pra vida: sua mãe é sinistra! E eu sou o marido da sinistra. rs

Desde o instante em que descobrimos que você estava para chegar, ela se dedicou a entender qual era maneira mais bacana e saudável para a sua recepção. Optamos por um caminho o mais natural possível e, a partir daí, ela encarou esse percurso com o empenho de primeira aluna da classe.

Começou pela escolha médica e, a partir dela, os demais integrantes da equipe foram chegando, entendendo o que queríamos, esclarecendo dúvidas e amenizando nossos medos. A cada consulta, a cada conversa, era uma lista de perguntas que levávamos e um bocado de respostas e possibilidades que trazíamos de volta.

Se para um problema X elas indicavam um caminho Y, sua mãe ia atrás do Y como se o Y fosse o novo Graal daquele período. Caso não se adaptasse ao Y, voltava com a questão pendente e uma possível solução: “E se esse Y pudesse ser um V?”. Ou seja, não bastava ser o novo Graal. Tinha de ser bom pra você. E pra ela.

E assim caminhamos. E, cara, sua mãe é boa em longas caminhadas. Depois converse com ela sobre isso. Ela fez o dever de casa. Exercício, massagens, caminhadas. Um dia antes de você nascer caminhamos cinco quilômetros em uma hora. Pode parecer pouco, mas para quem carregava aquela barriga, não. Os olhares das pessoas que passavam por ela no Parque Villa Lobos eram bem engraçados. Parecia que você ia nascer ali no gramado, ao lado da ciclovia.

Então, meu caro, poucas horas depois as contrações começaram. Rapaz, talvez não consiga descrever o que eu vi. Mas foi forte. Vi uma mulher determinada, sofrendo, gritando algumas vezes, com muitos calores em uns minutos, tremendo de frio em outros. Ou tudo junto.

Era a alegria de estar chegando esse momento tão esperado, com a violência das correntezas de ondas dolorosas que nem eu nem você entenderemos nessa vida. Em uns momentos ela sorria, noutros parecia querer rasgar os lençóis da cama. Até que pareceu ter entrado num transe só alterado pelas tais correntezas. Respirava, inspirava e gritava.

Foram horas, muitas horas. Gritos, urros, apertos. A impotência de quem pode apenas acompanhar é de uma solidão abissal.

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Um parênteses: seria muito mais difícil passar por tudo aquilo sem o apoio da equipe que escolhemos. Impossível talvez. Foi sua mãe quem me disse isso. E eu concordo.

Todos da equipe disseram que a primeira parte do processo avançou bem e rápido. A segunda demorou um pouco mais. Bem mais, na verdade.

Eu não leio mentes, mas se pudesse apostar, a cabeça de sua mãe era ocupada apenas por um mantra: “eu me preparei, eu vou conseguir; eu me preparei, eu vou conseguir”. E tudo, absolutamente tudo que pediram que ela fizesse, para facilitar sua chegada (não importasse a dor que ela sentia), ela fez.

Por um único momento, depois de muitas tentativas, cogitou-se a possibilidade de tentarmos uma alternativa. Justo a alternativa que sua mãe e eu não queríamos. Nesse instante, o rosto dela mudou. E ela chorou por quase cinco segundos. Cinco segundos, apenas. Respirou, se concentrou, fechou os olhos e tirou forças sabe deus de que entranhas, se agarrou ao que tinha por perto, prendeu a respiração até quase sufocar e… às 11h35 do dia 19 de dezembro de 2016 você chegou.

Parecia um milagre, mas foi força, perseverança, disciplina e dedicação.

Dos vários momentos que não quero esquecer (e por isso escrevo), um dos que mais me marcaram foi ver o rosto de sua mãe, poucos minutos após o seu nascimento. Parecia que ela não havia sentido nenhuma dor, nada, antes da sua chegada. Parecia que ela simplesmente tinha entrado no hospital, deitado naquela cama e você tinha nascido. Fiquei tão impressionado, que só nesse momento pensei em fazer um registro. Queria eternizar aquele rosto naquele momento, embora jamais vá me esquecer dele.

Algumas horas depois do parto, já no quarto, ela me disse: “Tudo o que eu queria era que, assim que nascesse, o Miguel viesse para o meu colo. Não queria que ele fosse examinado, não queria que ele fosse limpo, nada. Só queria que ele saísse de mim e viesse pra mim. Só isso”.

Ela conseguiu.  🙂

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7 comentários Adicione o seu

  1. Isabella Guerreiro disse:

    Tudo é possível quando o suporte vem do amor de quem decidiu estar ao lado para o que desse e viesse. Obrigada por acreditar, apoiar, sonhar e nunca deixar de segurar a minha mão.

    “Mas com você eu fico muito mais bonito
    Mais esperto
    E podia estar tudo agora dando errado pra mim
    Mas com você dá certo”

    Te amo S2

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  2. Mariléia disse:

    Minha filha é uma guerreira, nunca vi rosto tão lindo e tanta felicidade numa só pessoa em um momento tão especial. O momento dela. Parabéns Jaime por expressar exatamente os momentos vividos.

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  3. Gleyse disse:

    Especialmente nasceu um Guerreiro, sagitariano e vencedor, pois com toda sua bravura conseguiu almejar sorrisos e orgulho dos seus pais.

    Parabéns,
    Mãe Isabele guerreiro
    Pai Jaime Gonçalves

    Curtido por 2 pessoas

  4. eu que conheço a garra e a determinação da isa – acostumada a curtir longas caminhadas nesta vida – sei que a experiência dela no parto seria mais uma conquista como mulher, como uma “guerreiro”, uma prova do amor inabalável de uma leoa (seu signo não nos deixa mentir). por tudo isso, acredito que miguel tem muita sorte de tê-la como mãe e de ter jaime como pai, companheiro firme, forte e focado. parabéns pelo renascimento de vcs! obrigada pelo lindo relato! ❤️

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  5. Sany Dallarosa disse:

    Lindo! Que sorte desse Miguel ter vindo parar nessa família. Que sorte sua, Jaime, ter uma pessoa como a Isa por perto. Que sorte deles ter vc, Jaime. Que encontro incrível de pessoas. E que chegada abençoada e magnífica desse pequeno. É maravilhoso ver tudo isso sendo construído por vocês. E ver que o mundo é um lugar foda com pessoas fodásticas assim 🙂
    Beijo especial pra Isa, mulher guerreira, corajosa dessas que nos enche de orgulho e inspiração 😊

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  6. Quel Paltrinieri disse:

    Fiquei emocionada com seu relato. Mas quando li os 5 segundos em que Isabella chorou, meu coração doeu e parei ali, naquelas palavras e um misto de emoção tomou conta de mim… Parabéns pela coragem e obrigada, Jaime, por ser esse grande homem ao lado dessa guerreira.

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